meninas malvadas

Fevereiro 2, 2016 § Deixe um comentário

Vim embora correndo, o mais rápido que pude. Não sei o que me deu. Mas já desisti de entender, também, nem ligo mais. Eu estava lá, na minha, no meio da festa, segurando meu copo de vinho – copo mesmo, a festa não era lá essas coisas todas – conversei com duas ou três pessoas que vieram até mim para serem simpáticas, sabe, cumprir aquele papel social que um ambiente de festa exige da gente. Mas aí não deu mais. Enchi o saco, vim para casa. Não posso jogar a culpa na idade porque não é socialmente aceitável cansar de gente antes dos 30. Se alguém vier me perguntar depois, digo que eu estava passando mal. O que é meia verdade, se você pensar bem. Aquela gente toda e aquelas luzes todas e aquele papo furado todos reunidos sem nenhum propósito aparente me causaram uma certa náusea. Aquele maldito do Sartre fez um livro sobre isso, não foi? Foda-se. Não quero saber dele agora, minha mente vai dar um nó se eu começar a pensar demais.

O que eu preciso é tomar um banho gelado e achar um filme na Netflix que conte alguma história bem tola cujo cenário seja um colegial e envolva todos os estereótipos norte-americanos possíveis: precisa ter uma moça hiper feminilizada e popular que namore o capitão do time de futebol, mas aí sabe-se lá como ela começa a questionar a superficialidade da própria vida e de forma alguma ela deve ter um final feliz com esse cara no final. De preferência ele deve ser um babaca. É disso que eu preciso. Vai ser um ótimo sábado à noite.

Meu celular começa a tocar. Merda, merda, merda. Puta que pariu. Ligação não. É século XXI, porra, a humanidade teve um trabalho desgraçado para desenvolver a tecnologia e a gente continua usando ligação? É no mínimo um desfavor, por isso eu vou deixar que esse telefone continue tocando. Mas o filho da puta, quem quer que seja ele, é persistente e me liga uma segunda, terceira vez. Infelizmente, para mim, eu sou impaciente. Atendo.

– Quem tá falando?, eu pergunto, tentando esconder a intolerância presente no meu tom de voz.

– Aqui é seu tio Carlos, Ana. A gente precisa falar com você.

Por essa eu não esperava. Eu não via Carlos há uns bons 6 ou 7 anos, desde o enterro da minha avó, para ser bem exata. Nunca houve qualquer proximidade entre nós, na verdade. Não fazia ideia de que ele tinha meu número.

– Ana, você tá aí?

– Oi. Tô aqui. O que houve?

Carlos me disse que o que tinha para me falar era muito sério, não podia ser por telefone. Marcamos um almoço no outro dia às 12:15h no Dom Ferdinando, um pequeno restaurante que ficava a algumas quadras do meu apartamento e servia uma excelente lasanha de queijo. Como assim 12:15h, ele me perguntou, afinal por que não 12h ou 12:30h? Não sei, respondi honestamente, eu acho que 12:15h seja um bom horário para começar a comer. Além do mais, sempre gostei de meio termos.

Sentei na mesinha ao lado da segunda janela e eram exatamente 12:13h quando olhei no relógio. Eu não sou de chegar cedo nos lugares marcados, muito pelo contrário, ainda mais sendo um domingo, mas confesso que boa parte de mim fervia em curiosidade. Pedi uma lasanha para dois e às 12:19h, um homem gordo e alto de bochechas avermelhadas usando um sapato ridiculamente laranja-vivo entrou no restaurante. Acenei e sorri. Ele não sorriu ou demonstrou quaisquer reações, simplesmente veio a passos largos até onde eu estava sentada, jogou de qualquer jeito uma maleta marrom com aspecto de velha na minha frente, e disse:

– Eu não tenho muito tempo aqui. Não abra essa maleta agora. Aja normalmente. Coma, ande até em casa, e abra apenas lá.

– Como assim, tio? O que há na maleta?

– Você vai ver.

– Não pode me dizer?

Ele não respondeu. Virou de costas e fez menção de começar o caminho de volta até a porta. Mas antes disso, virou para mim e disse:

–  Não me ligue mais naquele número. Recebi instruções de te entregar isto, e já o fiz, agora tenho outros afazeres para realizar antes de… bem, você vai ver, mas não me ligue mais.

Eu poderia escrever um parágrafo só para descrever meus sentimentos na hora em que Carlos fechou a portinha do restaurante. Eu poderia devanear em mil palavras sobre o quão simultaneamente curiosa e irritada eu estava, afinal, apesar de toda minha vida ter sentido que a família da minha mãe não ia com minha cara, não achava que merecia ser tratada com tal descaso. Mas não vou. Vou resumir tudo com: que porra era aquela?

De qualquer forma, fiz o que me foi instruído. Comi metade da lasanha que iria me custar 56 paus, bebi um copo de suco, paguei a conta, disse que não precisava embalar o resto para viagem, peguei a maleta e saí andando. Quando eu cheguei em casa, atirei aquela maldita maleta no chão e a abri. Quer dizer, eu tentei abrir. O lacre era infalível. Peguei até a coleção de facas que Dona Maria, mãe do meu ex-noivo tinha me dado quando fiz o chá de casa, e nada. Toda a minha curiosidade agora havia se transformado em frustração. Não era possível, eu devia ter deixado algo escapar. Algo estava errado. O que eu estava ignorando?

Peguei meu maço de Dunhill e saí. Talvez reconstruir o caminho que eu havia feito meia hora antes pudesse clarear minha mente extremamente frustrada de alguma forma. Não precisei andar muito; ao cruzar a segunda esquina, o garçom que me atendera pouco tempo antes, vinha em minha direção.

– Você esqueceu algo na mesa.

Fitei-o fixamente. Me estendia um pedacinho de papel, todo dobrado, e parecia nervoso sobre alguma coisa. Mas uma coisa de cada vez. Agradeci e esperei ele ir embora para poder ler o conteúdo do papel. Quando eu abri pude ler, numa caligrafia pateticamente perfeita: Olhe debaixo do tapete. Voltei para casa e discretamente puxei uma chave de debaixo do tapete que agora parecia zombar de mim com aquelas letras coloridas estampando um “BEM-VINDO” e corri para abrir a porra da maleta.

Não sei nem como começar a descrever a quantidade de surpresas que eu encontrei ali. Toda a verdade sobre minha vida, sobre mim e todos ao meu redor, tudo o que eu nunca havia desconfiado, tudo estava ali, bem na minha frente. Passei a tarde inteira examinando 45 cartas, 67 fotos e 59 documentos. Isso é coisa para caralho, então eu vou resumir: minha mãe, que morrera mais ou menos na mesma época da minha avó, e boa parte da minha família por parte de mãe – a família por parte de pai eu nunca conhecera – eram caçadores de recompensas disfarçados das mais variadas profissões (eu passei 26 anos achando que mamãe fosse uma professora do primário, veja bem). Mas não eram esses caçadores de recompensa fajutos, sabe, eles tinham uma facção bilionária que não tinha nada a ver com a polícia ou com o governo, e uma espécie de pacto de fidelidade entre eles que me parecia bem séria. Eles também usavam roupas pretas colantes, o que ao meu ver não era necessário, mas devia ajudar no lance da emoção. Mamãe inacreditavelmente morrera de câncer e não por causa de alguma perseguição mafiosa, e havia deixado a maleta a cargo de Carlos e pedido para que ela fosse entregue à mim quando ele soubesse que corria grave perigo. Provavelmente era a isso que ele se referia quando me deu aquela calorosa despedida mais cedo.

Num daqueles documentos, havia dados duma conta bancária. A última carta do bolo de 45 era para mim. Mas não pense que era algo reconfortante, minha mãe nunca fora das mais carinhosas. Só havia escrito:

“Acumulei esse dinheiro para seu conforto ao longo dos seus anos de vida. Aproveite bem o fruto de meu suor. Com amor, mamãe.”

Típico. Cedo no outro eu teria folga do escritório, então fui ao banco conferir quanto havia na conta. 142 milhões de reais. E eu aqui pagando aluguel atrasado, puta merda.

Quando cheguei em casa, liguei o Netflix.

Que se dane, minha vida toda foi uma mentira e eu não tenho nem alguém nem com o quê gastar esse dinheiro todo. Vou assistir Meninas Malvadas.

Como caralho o garçom sabe onde eu moro?

Vou na geladeira. Pego uma cerveja. Esse filme é sensacional.

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junho.

Setembro 25, 2015 § Deixe um comentário

eu não quero falar de ti
com aquele sorriso distante
de quem tenta reavivar uma lembrança
escanteada e ignorada
apaga pela ocasionalidade;
eu não quero falar de ti
nem do teu cheiro
nem do teu afago
como quem fala
da sessão de cinema
que perdeu por atraso
do ônibus
que perdeu por atraso
da entrevista de emprego
que perdeu por atraso
eu não quero falar de ti
como quem fala de perda
nem como quem fala de atraso
nem como quem fala
como se custeasse relembrar
eu só quero falar de ti
e continuar falando de ti
até esse outono chegar ao fim
e até o próximo ir embora, depois
sem esquecer do som da tua risada
ou de como tu tomas teu café
ou da textura da tua pele
eu só quero falar de ti
e continuar.

uma velha rima sobre uma velha dor.

Abril 25, 2015 § 1 Comentário

Por muito tempo achei
que o amor bastasse
para satisfazer e alimentar,
complementar e afanar
cada canto da alma.

Já não acho, porém,
que caiba ao amor
suprir cada falta,
revogar cada tristeza
quando a vida nos falha.

Costumava achar que fosse
o sentimento mais nobre,
mais puro pleno e plausível
é com pesar que hoje assumo:
tal pensar não mais me acalma.

Podem me chamar apático,
frio e impassível;
o tempo ousou me revelar
as mais cruéis verdades
e a insensatez hoje me falta.

Meio assim, com cautela,
digo que recordo com aperto
de quando o amor não me era
só a mais melódica e arriscada
entre todas as canções.

dezembro.

Janeiro 13, 2015 § Deixe um comentário

Houve uma tarde de dezembro em que eu pensei que tudo aquilo que me restava era lamuriar aos quatro ventos. E pra mim mesma eu implorei, reclamei, quis voltar no tempo e quis cancelá-lo umas tantas e tantas vezes, nem sempre seguindo essa mesma sequência. Aí anoiteceu, o céu tava bem bonito e eu só queria olhar pra ele, lamentando a ausência das luzes das estrelas e bebendo louca daquela imensidão de prazer visual. Naquele momento eu me dei conta de que era a primeira vez no dia inteiro em que eu parei para encarar e aceitar a beleza de alguma coisa, a beleza pura e encantadora de alguma coisa, me dei conta de que eu nunca mais tinha aberto meus olhos assim pra mais nada desde que os tempos tinham começado a ficar difíceis, porque quando os tempos ficam difíceis a gente não quer saber de céu, tudo o que a gente quer saber é da gente, e esquece que às vezes nem são os tempos que complicam as coisas, somos nós quem complicamos o tempo. O tempo, e os poemas, e as partidas, e as saudades, e tudo.

Naquela noite, quando ficou perigoso demais para ficar sozinha na rua, eu entrei em casa com a sensação de que tinha tomado um banho de alma da cabeça aos pés e diminuído aquela dor metafórica pontiaguda dos meus males. Quando eu entrei em casa eu pensei que podia passar a fazer diferente, me lembro bem que pensei. Pensei também que não deveria importar tanto assim que a gente não conseguiu uma vez já que a gente tem a vida inteira para tentar de novo, e se decepcionar de novo caso não dê certo, mas principalmente se encher de orgulho quando ver nosso nome estampado em algum lugar ou quando escutar uma música que lembra aquela viagem de carro com o fulano e só sentir uma saudade gostosa daquele tempo bom.

O restante do que eu pensei eu não me lembro mais, ou porque já faz um tempo ou porque não faz mais diferença. De lá pra cá, eu não segui tudo o que eu pensei. Para ser sincera, eu não segui metade. Não me culpo, entretanto. Não é justo querer aplicar as teorias do otimismo na vida da gente e achar que vai sair impune. Eu tive que me acostumar, ainda que teimosa como sou, às tardes de dezembro negro que de vez em quando vêm sem permissão e às noites de céu limpo que me dizem o que fazer. E assim segue, não adianta querer mudar, não é assim que funciona, não é assim que algum dia funcionou. Talvez em menor balanço para um ciclano mais sortudo e com muito mais arrodeio para um pobre infortuno, mas mudança, mudança mesmo, aquela que faz a gente repensar tudo o que sabe sobre tudo, não adianta. Adianta é a gente se agarrar ao céu.

vermelho.

Janeiro 11, 2015 § Deixe um comentário

teu peito tornou-se meu repouso naquele sábado à tarde
em que minha solidão encostou no teu olhar e se foi
e às 14:15h eu já sabia que minha alma, sorrateira
pertencia à tua e deleitava-se com teu encanto
bebia plena do teu olhar imensuravelmente meu

e teu encanto permaneceu vivo e teu peito, meu repouso
tu e esse teu olhar eram meu pouso preferido
pois graças aos teus olhos eu me embargava em acalento
teus olhos castanhos claros calmos castos cortêses
cantavam ternura, gritavam amparo

e longe de mim querer saber a que ponto o encanto se perdeu
no ínfimo do meu amor, teu amor está resguardado
imaculado
teu amor sublime sereno sagaz e vermelho
me mata de ternura como naquele sábado (à tarde).

dizem que é exagero meu

Janeiro 11, 2015 § Deixe um comentário

toda essa história de te ver e ser
que nem quem acha agulha no palheiro
de ser quem relembra num carinho
a graça que procurou uma vida inteira.

dizem ser exagero meu
os sorrisos meio frouxos meio tortos
e a paz que preenche cada ponto
vazio, murcho e sozinho de mim
quando tu vens, meu bem

tu vens e me afagas me usas
e transcendes e revogas
tudo aquilo que não for pra ser

há quem não entenda, não
o quão pleno se torna meu eu
depois de ser teu eu também
e do teu cheiro se agarrar em mim

porque tu sabes muito bem
do bem que tu me fazes
e que sem teu bem
eu sou só metade
eu sou só.

todo dia.

Janeiro 7, 2015 § Deixe um comentário

A gente gosta
de falar de amor
tomando uma cerveja quente
fumando um cigarro fajuto
lembrando da vez que fulano
que era irmão do ciclano
– aquele conhecido nosso –
casou depois de três meses
e até hoje é infeliz

mas a gente também lembra
de falar daquela moça
que casou por interesse
e acabou por dar de cara
com o famoso do amor.

A gente gosta
de falar de liberdade
afirmando com propriedade
e estampando um sorriso no rosto
ao dizer que a vida é outra
e tudo muda, tudo mesmo
depois que a gente é independente
e só nós mesmos podemos
limpar a barra da gente

e aí nós tomamos outro gole
e não chegamos a falar
o que tamborila na nossa mente
fingimos que tudo são flores
que é pra não soar como blasfêmia
à batalha de todo dia.

O livre arbítrio é a regra
dissemos nós
em meio a sorrisos ingênuos
e um papo tranquilo
acreditando piamente
que somos os donos do mundo
que somos os donos de nós.

  • who

    sou do avesso, ao contrário, dos versos quebrados, dos sambas notados, os que cantam você

  • o depósito.

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